terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Crianças?




Quarta-feira, quase onze horas da noite.

- Vou arrumar um celular novo hoje!- disse uma vozinha que vinha em minha direção.
- Onde?- perguntou seu companheiro.
- Lá embaixo, vou parar alguém e mandar passar o celular. Quer ver?

Eram dois meninos, não mais de 13 anos. Um deles já com um celular na mão, ouvindo música alta. Moram aqui perto de casa, tem pais, vão a escola, jogam futebol na rua e assaltam pessoas.


Não sei mais diferenciar uma criança de um marginal.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Saúde!

-Atchim!
Que ótimo, um ataque de espirros bem no meio da livraria...
-Saúde!
Eu escuto uma voz masculina que veio do nada.
Olho ao redor, ninguém. Devo ter imaginado. A única pessoa que me diria saúde depois de ter espirrado no meio de um monte de estranhos é minha irmã, mas não disse.
-Atchim!
Mais um...
-Saúde!
De novo, olho a redor, não vejo ninguém, caminho em direção a porta com minha irmã ao lado.
-Ele te disse saúde duas vezes!
-Eu ouvi, mas quem foi?
Olho para trás pensado que seria um cara meio tarado e cheio de segundas intenções, mas penso por um momento e percebo que a voz da minha irmã não me diz isso.
Viro a cabeça e vejo um garoto de óculos me encarando. Envergonho-me dos meus pensamentos. Digo obrigada e abro um sorriso de vergonha e gratidão.
Era um garoto com sindrome de down. Creio que ele estava esperando que eu agradecesse. Seus pais devem ter lhe dado uma boa educação... A minha, por outro lado, parece estar cada dia pior.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Seu Fernando...

Seu Fernando é cinéfilo, assiste todas as sessões, conhece os funcionários por nome, cumprimenta todos, das meninas da bilheteria até o porteiro do cinema.
Desde que comecei a trabalhar me pergunto sobre quem é esse senhor que vem quase todos os dias, sempre muito simpático e educado, sempre pede permissão para se aproximar do balcão. É também muito simples, foi há muitos anos atrás tenente do exército e hoje vende mapas (pelas ruas, creio eu), nunca lhe perguntei nada disso, soube pelas meninas que trabalham junto comigo.
Carrega pelas ruas seus mapas dentro de duas sacolas/bolsas que ficam extremamente carregadas, mas nunca aparenta cansaço, ou a idade que tem. Antes de cada sessão deixa suas sacolas no guarda-volumes, faz questão de passar pela portinha lateral e não deixa nenhuma das meninas carregar: "você é louca, são muito pesadas!".
Há quem não goste dele, dizendo que é muito folgado e chato, implicância infantil.
Semana passada, enquanto eu estava no guarda-volume, ele foi buscar suas coisas e conversamos um pouco, me perguntou sobre meu nome e quem o escolheu, dizendo que não conhecia muitas meninas com o mesmo nome que eu e terminou perguntando se poderia voltar para nos visitar (o centro cultural, claro!) no dia seguinte.
Um visitante exemplar! Se todos fossem assim seria o paraíso...