segunda-feira, 1 de março de 2010

Pelo direito de ser oriental!


Pai - Sabe aquele japonês que mora em tal lugar? Vocês já foram na casa dele...
Eu - Não sei de quem você está falando, pai. Mas o que tem ele?
P - Ele foi furado com facas por uns muleques que foram assaltar a casa dele.
E - Furado?? ele morreu?
P - Não, não foi bem furado, eles só estavam enfiando a faca nos braços dele, mas a polícia pegou os assaltantes.
E - Ahhh, isso saiu no jornal não é? Mas disseram que eram coreanos, eu acho.
P - Não, eram japoneses.
E - Deviam matar esses infelizes!
P - Ahh, mas a polícia pegou... E aquela senhora japonesa que mora lá embaixo e levou uma facada?
E - Quem??? Ela foi assaltada também? Morreu??
P - Não, não morreu, mas entraram na casa dela e ela deu uma facada num dos assaltantes, depois voltaram lá e deram uma facada nela.
E - Fazem isso só porque são japoneses, são esses muleques que moram aí embaixo. Lá só tem gente que não presta. Eu contei outro dia dos meninos que estavam falando em assaltar pra conseguir um celular novo? Eles passaram por mim na rua, quando eu voltava da facul...
Irmã politicamente correta - Creedo, que preconceito!!
E - Preconceito?? Levaram a corrente do portão de casa outro dia, no mesmo dia a noite quando eu estava limpando o quintal, dois caras passaram a frente de casa olharam e deram meia volta pra olhar a casa de novo!! Só pra ver se a casa estava aberta!! Com certeza pensaram em assaltar a casa.

Não é a primeira história que escuto desse tipo, não é a primeira do ano nem do mês, mas não consigo deixar de pensar no quanto a minha raça sofre porque trabalha. não tenho um parente que ainda não foi assaltado. Eu já fui assaltada. Corro para a janela cada vez que o cachorro late.
Vi no jornal uma foto desse senhor conhecido do meu pai que foi assaltado, meu conhecido, ensanguentado, idoso. Penso que poderia ter sido meu pai, poderia ser a minha avô.
Penso que preferia morrer a um dia ter que ouvir do meu pai que isso aconteceu com ele.
Penso em deixar de lado toda essa baboseira politicamente correta e comprar uma arma.
Penso em ir até aquele lugar aqui perto, onde todos sabemos que moram essas pessoas. Não são pobres, não passam fome, mas olham para nós na rua como se devessemos a eles alguma coisa.
Desculpas. Desculpas por sermos japoneses. Desculpas por sermos orientais. Desculpas por não termos desistido dos estudos. Desculpas por roubarmos seus lugares no mercado de trabalho, porque eles preferiram o pagode na esquina nas vésperas de prova.
Desculpas por existirmos. Desculpas por não nos deixarmos abater pelo preconceito deles. Desculpas por termos condições de comprar um celular novo para cada um que eles nos tomam.
Desculpem-me por achar que não devo pedir desculpas.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Crianças?




Quarta-feira, quase onze horas da noite.

- Vou arrumar um celular novo hoje!- disse uma vozinha que vinha em minha direção.
- Onde?- perguntou seu companheiro.
- Lá embaixo, vou parar alguém e mandar passar o celular. Quer ver?

Eram dois meninos, não mais de 13 anos. Um deles já com um celular na mão, ouvindo música alta. Moram aqui perto de casa, tem pais, vão a escola, jogam futebol na rua e assaltam pessoas.


Não sei mais diferenciar uma criança de um marginal.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Saúde!

-Atchim!
Que ótimo, um ataque de espirros bem no meio da livraria...
-Saúde!
Eu escuto uma voz masculina que veio do nada.
Olho ao redor, ninguém. Devo ter imaginado. A única pessoa que me diria saúde depois de ter espirrado no meio de um monte de estranhos é minha irmã, mas não disse.
-Atchim!
Mais um...
-Saúde!
De novo, olho a redor, não vejo ninguém, caminho em direção a porta com minha irmã ao lado.
-Ele te disse saúde duas vezes!
-Eu ouvi, mas quem foi?
Olho para trás pensado que seria um cara meio tarado e cheio de segundas intenções, mas penso por um momento e percebo que a voz da minha irmã não me diz isso.
Viro a cabeça e vejo um garoto de óculos me encarando. Envergonho-me dos meus pensamentos. Digo obrigada e abro um sorriso de vergonha e gratidão.
Era um garoto com sindrome de down. Creio que ele estava esperando que eu agradecesse. Seus pais devem ter lhe dado uma boa educação... A minha, por outro lado, parece estar cada dia pior.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Seu Fernando...

Seu Fernando é cinéfilo, assiste todas as sessões, conhece os funcionários por nome, cumprimenta todos, das meninas da bilheteria até o porteiro do cinema.
Desde que comecei a trabalhar me pergunto sobre quem é esse senhor que vem quase todos os dias, sempre muito simpático e educado, sempre pede permissão para se aproximar do balcão. É também muito simples, foi há muitos anos atrás tenente do exército e hoje vende mapas (pelas ruas, creio eu), nunca lhe perguntei nada disso, soube pelas meninas que trabalham junto comigo.
Carrega pelas ruas seus mapas dentro de duas sacolas/bolsas que ficam extremamente carregadas, mas nunca aparenta cansaço, ou a idade que tem. Antes de cada sessão deixa suas sacolas no guarda-volumes, faz questão de passar pela portinha lateral e não deixa nenhuma das meninas carregar: "você é louca, são muito pesadas!".
Há quem não goste dele, dizendo que é muito folgado e chato, implicância infantil.
Semana passada, enquanto eu estava no guarda-volume, ele foi buscar suas coisas e conversamos um pouco, me perguntou sobre meu nome e quem o escolheu, dizendo que não conhecia muitas meninas com o mesmo nome que eu e terminou perguntando se poderia voltar para nos visitar (o centro cultural, claro!) no dia seguinte.
Um visitante exemplar! Se todos fossem assim seria o paraíso...

domingo, 14 de dezembro de 2008

A velhinha do Zoológico...


Observava silenciosamente um hipopótamo quando uma velhinha parou do meu lado. Não olhei pra ela, o hipopótamo estava quase se virando dentro da água e eu estava achando aquilo bastante interessante. De repente a escuto dizer: "e a gente reclamando da vida, isso é puro cativeiro" e saiu andando meio brava. Acho que eu e a velhinha vimos coisas diferentes.
Vendo o hipopótamo girando o corpo de um lado pro outro eu acreditava que ele estava se divertindo, se refrescando sozinho no espaço dele enquanto os outros dois dividiam a outra "piscina", já aquela senhora só viu um bicho preso.
Pergunto-me o que ela esperava ver no zoológico. Ela deveria ter ido ao Zoo Simba então, onde os animais ficam soltos.
Mesmo assim, não tiro a razão dela, eles estão sim, presos em cativeiro. Mas quanto a pensar que aquilo é pior do que estar lá fora na África? Lá eles não precisam disputar território, preocuparem-se em serem atacados por jacarés, ou serem vítimas de outros animais, nem em procurar comida ou como vão se virar se estiverem machucados. Eles tem várias pessoas trabalhando apenas para o bem-estar deles, isso é mais do que muitos humanos tem.
Alguns animais lá dentro do zoo parecem tristes sim, como aquele lobo europeu preso sozinho, algumas aves em espaço confinado. Mas, o hipopótamo parecia bastante feliz, não só ele, como os chimpanzés, as várias espécies de cisnes, marrecas(?), algumas aves de rapina que tem um espaço enoooooooooooooorme a sua disposição, as araras e os ursos.
O hipopótamo, porém, era ontem o animal mais feliz daquele lugar, pena que não conseguiu se virar...

A menina de casaco preto...

Ontem, junto comigo e meu namorado, estava uma menina de casaco preto no metrô.
Uma dessas de estilo "moderninho",all star, ouvindo mp3 e usando um casaco preto meio vestido(sim, parecia um vestido). Nada que chamasse muita atenção, mas eu estava sentada em frente a ela e, discreta como sou, fiquei olhando. Notei que ela tinha algo de oriental, devia ser mestiça, apesar de não ter muita certeza. Ela não viu que eu observava. Parei, comecei uma discussão meio boba com meu namorado sobre mudar de assento, e quando olhei de novo, ela estava sorrindo pra mim. Não entendi se ela estava sorrindo por causa da música que ouvia, algo que havia acabado de lembrar ou da minha discussão com meu namorado, mas ela ficou um bom tempo sorrindo pra mim. Confesso que fiquei meio sem reação, não costumo sorrir de volta para as pessoas, mas eu também estava sorrindo por causa da minha discussão. Então por um breve momento sorrimos uma para a outra.
Achava que ela antes parecia um tanto antipática, tinha ficado um bom tempo se olhando no espelho de mão que tirou da bolsa, arrumando o cabelo que parecia ter sido escovado, mas não foi que isso que a princípio tinha chamado minha atenção. Antes de tirar o espelho da bolsa, ela também estava olhando para algumas pessoas, como eu, e eu pensei que talvez eu não fosse a única lá dentro que gostava de observar as pessoas e imaginar como elas são, aquela menina fazia o mesmo.
Claro que nunca vou ter certeza, mas por causa disso e do sorriso dela pra mim, eu senti uma certa simpatia por ela, até o momento que ela foi embora.